Por: Juan Felipe Guerrero C.

Minneapolis, MN, Estados Unidos

Quando uma pessoa fala que é especialista em facilidade de uso e design instrutivo e educacional, é engraçado perceber que, geralmente, é difícil imaginar o tipo de pessoa que ela é na verdade. “Você só precisa aprender a sobreviver ao inverno aqui. A cidade fica realmente muito, muito fria nesses meses”, nos disse Julie Dirksen, entre risos, conforme nos acomodávamos em sua sala de estar.

Julie é uma estrategista em design instrutivo e educacional e nativa de Minneapolis, uma cidade pela qual é completamente apaixonada em função da sua atmosfera artística, ainda que não goste tanto assim no inverno, quando as árvores estão desfolhadas e os telhados das casas e os carros ficam cobertos por grossas camadas de neve.

Ouvindo Julie falar, não importa o quanto ela gosta de passar um fim de semana passeando ao longo do calçadão do Mississippi (que fica a apenas cinco minutos de sua casa), ou sobre seu amor pela pintura a aquarela e museus, ou ainda sobre sua paixão pelo design instrutivo e e-learning, percebe-se que ela é uma pessoa alegre e apaixonada.

Durante duas décadas, um dos maiores interesses de Julie tem sido a capacidade de uso e o design instrutivo. Logo no início de sua carreira, Julie trabalhou como instrutora em um call center de atendimento ao cliente. Há apenas seis anos, ela decidiu começar seu caminho de independência e dar os primeiros passos para concretizar sua paixão. “Como vocês sabem, meu dia comum não é muito ortodoxo. Eu não tenho colegas de trabalho no sentido tradicional. Lido com muitas conferências virtuais, muitos clientes que nunca encontrei pessoalmente, e-mails e outras coisas”, diz Julie.

Inúmeras portas se abriram no campo para Julie desde que ela se formou em Tecnologia de Sistemas Instrutivos na Universidade de Indiana, tornando-a a autoridade que é hoje nesses temas. Ela acredita que há vários problemas a serem resolvidos em sua área, entre as quais a falta de feedback relevante. “Nem sempre sabemos o que funciona e o que não funciona. Se funciona, é porque há vendas, mas se não houver vendas, é porque não funciona”, conclui ela. E, é claro, o treinamento e o aprendizado nem sempre são os motivos por trás dos problemas de facilidade de uso. “Algumas vezes é um problema de motivação, não um problema de conhecimento”.

Embora também seja um problema de atenção, seu cachorro – que não parou de latir desde que entramos no imóvel – nos diria, se pudesse falar. “Tenho que levar o Max para passear e fazer suas necessidades”, nos contou Julie, rindo e levemente envergonhada.

Duas quadras depois de sair da casa dela, eu realmente entendo o que ela quis dizer sobre passear ao longo do calçadão. Em apenas cinco minutos, você sente como se tivesse deixado para trás o caos da cidade e encontrasse a tranquilidade do campo. Até o cheiro é diferente. É um sentimento invejável.

A insatisfação de Julie com as tendências atuais no design instrutivo é igualmente evidente. “Não acho que há muita orientação para pessoas novas que desejam abordar esse assunto” afirmou ela, com um certo grau de frustração, mas também um claro desejo de mudar essa situação. Uma das coisas em que Julie vem trabalhando nos últimos anos é uma iniciativa de colocar as práticas recomendadas de Design Instrutivo em guias essenciais para pessoas que queiram ingressar no setor, mas têm pouco conhecimento anterior. De fato, quando retornamos da caminhada matinal com seu amigo de quatro patas e ela soltou o Schnauzer de sua coleira para tomar água, Julie foi até sua biblioteca e me mostrou um livro de sua autoria: “Design para como as pessoas aprendem”. “Uma das metas que eu tinha ao escrever o livro era ajudar as pessoas a entender não só o que fazer em termos de design instrutivo, mas as razões que envolviam o porquê e o para quê”, conta Julie. Ela nos mostrou a contracapa, fechou o livro e disse: “Se as pessoas pudessem entender isso, tenho certeza de que poderiam tomar decisões melhores”.

Não é segredo que uma grande parte da literatura sobre facilidade de uso e design instrutivo é um material altamente técnico e complexo. Faltam livros acessíveis, e este é um dos objetivos de Julie: redefinir a forma como as pessoas escrevem sobre problemas de e-learning. “Uma das formas de abordar esse problema é usar a linguagem convencional, apesar do fato de você estar discutindo um assunto altamente técnico”. É claro que há muitos termos técnicos que não podem ser omitidos, devido à carga cognitiva, mas a linguagem e o discurso podem ser alterados. “As pessoas não usam contrações, não falam diretamente com o leitor… Podemos falar de maneira profissional, mas não temos necessariamente que fazer isso em termos do modo como expressamos o conteúdo”, concluiu ela.

Felizmente, nosso encontro com Julie Dirksen não ocorreu no inverno. As baixas temperaturas certamente teriam deixado a visita menos agradável. Embora isso talvez não fosse tão importante. No fim das contas, se pudermos entender que a linguagem do design instrutivo não necessariamente precisa ser complicada, resistir a um pouco de frio também não precisa ser tão difícil.

*Julie Dirksen – especialista em facilidade de uso e design instrutivo e educacional.

Fotografia: Julie Dirksen